sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

REPOUSO GARANTIDO


Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. Mateus 11: 28-30

                Cansaço e sobrecarrega na alma – O que significa uma alma cansada? Se pensarmos em alma como o centro das emoções, a sobrecarga pode ficar por conta dos muitos e volumosos investimentos que o mundo à volta faz, através de seus incontáveis meios, requerendo, exigindo, determinando, sugestionando e pretendendo seduzir nossos desejos, afetos e emoções. A alma muito exigida nas lides da vida, é o centro emocional levado ao extremo de sua capacidade para vivenciar numa mudança vertiginosa o contraste de suas emoções: alegria para o abatimento; prazer para repulsa; afeição para ódio. Também o malabarismo a que somos levados para balancear nosso emocional exigentemente contido diante dos conflitos e desaforos e humilhações que ocorrem maioria das vezes nas interrelações, produz, infalivelmente, sobrecarga.
Uma mente depressiva é uma alma sobrecarregada.
Uma mente culpada, é uma alma sobrecarregada.
Uma mente sem opções, atônita, está sobrecarregada.
Sobrecarga fala disso: excesso de carga.
                               E o que a sobrecarga produz? Cansaço. Astenia.
                               O cansaço tem a sintomática da perda de forças, que envolve desde os afetos, o corpo. A alma cansada é vista na incapacidade de conduzir afetos correspondentes a fatos. Distorção de sentimentos, desânimo, ou inação.  A vontade minada, e perigosamente tendente a deixar-se levar por opções imediatas, impensadas e sugeridas por terceiros sem responsabilidade.
                A observação nos leva a perceber que nem sempre uma alma sobrecarregada sintomatiza de imediato os efeitos do cansaço, mas isso vai crescendo lentamente, às vezes dissimulado por ligeiros momentos de alívio que maquiam a verdade, escondendo o buraco que cresce no interior, em direção à erosão total.
                Então surge uma saída: opção de descanso. O que vem a ser o descanso?
                Primeiramente é importante considerar que o descanso é oferecido por alguém: Jesus. Não se trata de uma situação ou solução via realização de um evento, mas um ponto de encontro, um lugar, que na verdade é uma Pessoa, Alguém. Daí Ele dizer: Venham a mim. O descanso é oferecido nEle, na Sua pessoa, num entrar em contato com Ele. Ele afirma: “Eu lhes darei descanso”. Logo, trata-se de algo que Ele fará, e não que o cansado fará. Ao cansado é oferecido um convite, e tudo que lhe basta é ir ao encontro de Quem o faz.
                Em seguida entendemos que o ato de chegar-se a Ele implica em usar o que Ele oferece, e isto é chamado de “  tomar seu jugo e aprender dEle”.  Aqui entramos no terreno do compromisso. A busca pelo descanso implica em se comprometer com quem o oferece. A linguagem “tomar o jugo”, que redunda em aprender, significa engajar-se no mesmo estilo de atividade. Ou seja, entrar em parceria, e aí está o significado real de descanso a que Ele alude. Algo semelhante ao boi que se atrela ao outro, colocando-o sob a mesma canga para puxar o arado.  Dirige a parelha o boi mais experiente. É o que Jesus oferece aqui, e isto se resume na idéia de confiar-se a Ele, deixá-Lo tomar as rédeas da existência. Ele sugere, ou dá a idéia de uma troca de jugo e de fardo, como a dizer: “Não estou convidando você a um SPA, onde vai ficar deitado numa rede esperando tudo ser feito. Não. O convite é para viver minha visão, meu plano, minha direção para a vida, pois a que o orienta, o sobrecarrega, exige sem nada dar em troca, mas a minha, é sustentável, garantida, assistida e seguramente vitoriosa, pois termino o que começo bem sucedidamente”. Sim, Ele é o princípio e o fim. Logo, podemos entender que tomar o fardo de Jesus envolve um compromisso com uma mudança mental, mudança de sistema vivencial, saindo da esfera ou do limiar de conduzir-se pelas influências do meio, para a influência de Suas idéias, Seus princípios, Sua forma de ser. Aquele sobrecarrega, este, produz descanso. Daí a idéia se completar quando Ele  diz que é manso e humilde de coração. Ele prova o resultado do descanso.
                Qualquer de nós sabe que uma mente sobrecarregada expressa-se em irritabilidade e prepotência, altivez, para dizer o mínimo. Uma mente descansada está inclinada à mansidão e simplicidade. Então as idéias se aclaram, as decisões são seguras, a capacidade de raciocinar está livre do embotamento emocional.  E na simplicidade está a possibilidade de uma longa e bem sucedida existência do ser humano.  A irritabilidade contumaz conduz ao estresse, e sabemos que ele nada produz de bom, além de doença e até mesmo a morte precoce ou enfermidades deterioradoras.
                Entendemos que o que Cristo afirma é que no descanso há mansidão e humildade, características de alma segura.  A palavra que bem sintetiza isto é paz. Quando deixamo-nos ir a Jesus, encontramos descanso, gozamos paz.  E o movimento é exatamente este: ir a Ele.
                Nas lides diárias, estamos ocupados demais conosco mesmos e com nossas coisas. Exigidos e absorvidos pelos que nos solicitam, família, amigos ou companheiros de trabalho. Isto é uma constante. O convite de Jesus pressupõe um escape, a busca por um escape, uma saída à parte, em direção a Ele, que não pode ocorrer como uma experiência isolada, única, suficiente para a existência inteira, mas que deve ser renovada dia a dia, porque estar nEle é um investimento espiritual que deve ser buscado diariamente, para que, qualquer que seja o dia que vivemos, sempre nos seja um shabbat, um sábado de descanso espiritual.
                O convite estará sempre aberto, porque como Ele  diz Em Sua Palavra:  Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração. Eu me deixarei ser encontrado por vocês. – Jeremias 29:13 e 14.  Qualquer de nós pode fazer isto agora mesmo.  Ele está sempre convidando: “Venham à parte, e descansem um pouco”.

                                               Pr. Cleber Alho

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O CRISTÃO E A FÉ GENUÍNA - O justo pela fé viverá


Vivemos um tempo desafiador para a genuinidade da confissão evangélica, em especial no que tange ao exercício da fé. Temos sido cercados por um corolário de novidades em termos da práxis cristã que confunde muitos dentre os nossos irmãos. A própria doutrina bíblica que expõe a fé que uma vez por todas foi dada aos santos (Jd. v.3) encontra-se invadida por conceitos distorcidos, e muitos, por conta disto, se equivocam e confundidos acabam olhando a fé como um talismã que poderia ser usado para manipular a manifestação do poder de Deus. Isto faz do exame escriturístico sobre a fé uma urgência premente.

I- O Caráter da Fé Evangélica

Comecemos com alguns argumentos bíblicos que esclarecem a fé e seu exercício, para nós.

A Origem da Fé

1- A fé é um dom de Deus.
É bastante avaliar isto à luz destes três textos: Judas 3 (já citado); I Coríntios 12:9 (a outro, fé, pelo mesmo Espírito...) e Efésios 2:8 (Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus) .

2- O autor da fé é Jesus
Conforme Hebreus 12:2, Jesus é O autor da fé e neste texto também somos informados de que Ele a consuma, ou seja, Ele a conduz para um cumprimento eficaz. E quando sabemos que a autoria da fé vem de Cristo, isto estabelece que ela não se torna resultado de nossa resposta pessoal ao que recebemos, nem fruto de nossa experiência cúltica, como pensam alguns, achando que o culto ou o testemunho de alguém podem por si mesmos produzir fé em nosso coração. Antes, esses instrumentos de que a Graça de Deus pode servir-se objetivamente, apontam-nos Cristo e Sua obra, mas não produzem a fé que somente Ele, o Senhor por Seu Espírito Santo, pode gerar em nosso íntimo. Cristo e só Ele é o Autor da fé.

Alimentar essa fé que nos foi dada, é tarefa nossa, daí lermos Romanos 10:17 que nos exorta a esse respeito. A partir daí também podemos entender por que encontramos em ocasiões diversas Jesus elogiando ou repreendendo os homens quanto ao trato que deram à sua fé, usando expressões como: homens de pequena fé, ou: mulher, grande é a tua fé.

O Compromisso da Fé

A fé tem um compromisso que está acima das perspectivas imediatas do crente, conforme nos mostra o texto de I Pedro 1: 6 e 7 (Nisso vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de tempo, devam ser entristecidos por todo tipo de provação. Assim acontece para que fique comprovado que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado).  A partir deste texto, associado ao clássico texto de Hebreus 11: 1 e 2, onde encontramos uma definição de fé, duas coisas podemos discernir sobre a fé:
1- A fé não nos foi dada para trazer Deus até nós, antes para aproximar-nos dEle, levar-nos a Ele. Confira Hebreus 10: 22.
2- A fé não nos foi dada para obtermos coisas de Deus, meramente, mas para darmos a Ele louvor e glória, ou, em outras palavras, para que redunde no louvor de Sua glória.

Mediante a informação de que a fé é dom de Deus e que seu autor é Cristo, entendemos que, diferentemente do formato que alguns lhe querem dar, a fé não é uma força espiritual personalizada no crente, como se fosse uma imanência, ou energia evangélica que move o poder de Deus. Antes, a fé, dom de Deus, move o crente ao seu Deus. Também entendemos à luz de Hebreus 11: 1 e 2 que ela é convicção íntima e certeza que nos move em direção ao Invisível.
  
Significado moral da fé

Há um texto único no Velho Testamento que fala sobre fé e ele se encontra em Habacuque 2: 4, vindo a se repetir no Novo Testamento em Romanos 1:17; Gálatas 3:11 e Hebreus 10:8 – O justo pela fé viverá. Este texto revela-nos que a fé tem um significado moral, não fictício ou mágico. Esse significado que se traduziu por fé, é confiança, que pode ser desdobrada ainda na idéia de entrega, ou rendição plena, para apontar o seu sentido mais completo que é fidelidade. A palavra original que em Habacuque 2:4 foi traduzida por fé e assim passou para o Novo Testamento, tem o sentido mais pleno de fidelidade, daí o seu significado moral, resultando no sentido de que nossa rendição, fruto de nossa confiança no Senhor, vem a ser a medida de nossa fidelidade a Ele. Fica mais fácil, em face disso, entender os elogios ou repreensões do Senhor ao uso que os homens fazem da fé. Também favorece e conforta saber que nossa fidelidade não será nunca a medida do poder de Deus, porquanto o apóstolo Paulo ensinou que se somos infiéis, Ele permanece fiel, porque não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm. 2:13). Aleluia!

Alguns ficam confusos quando pensam que a falta de fé, conforme entendem, pode impedir a manifestação do agir de Deus. No entanto Jesus nunca falou de falta de fé como razão de impedimento para o Seu agir, e sim, a incredulidade. Ele não tem compromisso com incrédulos, mas com os crentes sim, fortes ou fracos na fé. Ademais, corroborando isto devemos lembrar que em ocasiões diversas, em que Ele repreendeu a falta de fé nos que O seguiam, o fez no momento exato em que manifestava o Seu poder como quando acalmou a tempestade de dentro do barco. Aquele era um importante e crítico momento em que o Senhor deixou claro que a fé estava em falta entre os crentes que O acompanhavam. Mesmo assim Ele agiu!

A fé que nos foi dada precisa crescer, ser alimentada, porque deve correr em direção ao alvo que é redundar na glória de Cristo. E por isso, passa por um processo de aprendizagem ou discipulado, conforme proposto em Hebreus 13:7 (Lembrem-se dos seus líderes, que lhes falaram a Palavra de Deus. Observem bem o resultado da vida que tiveram e imitem a sua fé)  e como também podemos inferir de Romanos 4:11 e 12 (Assim ele(Abraão) recebeu a circuncisão como sinal, como selo da jusiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado. Portanto, ele é o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados, a fim de que a justiça fosse creditada também a eles; e é igualmente o pai dos circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão), em especial quando menciona um caminhar nosso nessas pegadas da fé.

Esta é a razão por que temos todo o texto que compreende Hebreus 10:35 a 12:3, passando pelo capítulo 11 inteiro, onde os baluartes da fé nos são apresentados para que com eles aprendamos o exercício da fé genuína, daí, após uma exposição do seu testemunho de fé, o autor de Hebreus nos lembrar que eles todos são os referenciais para nossa caminhada de fé, que deve ser feita com os olhos fixos em Cristo, seu Autor e Consumador (Hebreus 12:2).

II- O Exercício da Fé Adoradora

A exposição ampla da experiência de vida de fé dos homens e mulheres de Deus tidos por testemunhas, em Hebreus capítulo11, foi feita para nossa aprendizagem. Antes de avaliarmos essas experiências, o que faremos no texto de Hebreus 11: 3-34, convém ressaltar um ponto importante: É comum designarmos esses personagens como heróis da fé. Essa é uma atribuição nossa, que incorre no risco de levar-nos a torná-los ícones dos quais ficamos distanciados por conta de sua heroicidade, o que os eleva e os afasta de nossas limitações e fraquezas. O perigo reside no fato de que ao reputá-los por heróis, fazêmo-los supercrentes, ou espiritualmente capacitados, o que justificaria nossa pequenês na fé. Não. Longe disso, a terminologia textual exarada ao longo de Hebreus 10 a 12 é testemunha, no que se refere a eles todos. São testemunhas, não heróis, por mais que os admiremos. E testemunha é palavra que na língua original do Novo Testamento traduz mártir. Melhor é que os vejamos como a Bíblia os denomina, porque assim enxergamos as fraquezas que também os caracterizam, e isso os aproxima de nós e nos permite entender que podemos avançar por fé, tanto quanto todos eles.

Há uma relação dessas testemunhas que exercitaram uma fé adoradora, conforme o texto que vai de Hebreus 11: 3 a 34. E que tipo de fé eles caracterizaram para nós? Vejamos suas pegadas. No texto de Hebreus 11: 4-7, destacam-se três testemunhas da fé como referência de adoradores: Abel, Enoque e Noé.

A adoração é marcada por três pilares:
- Proveniente da fé (Rm. 14:23 - ...tudo o que não provém da fé é pecado);
- Feita em espírito (Jo. 4:23 - ... os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito...);
- Feita em verdade (Jo. 4:23 - ...os verdadeiros adoradores adorarão o Pai...em verdade).

Isto é o que podemos achar nestes referenciais humanos de fé. É importante entendermos que adoração não deve ser confundida com louvor e ato cúltico coletivo. Para que o louvor seja adoração, necessita de ser constituído pelos elementos que caracterizam a adoração. A adoração serve-se do louvor tal como o entendemos, mas também pode prescindir dele. A adoração precisa ser fruto de fé, feita em espírito e em verdade, como a Palavra de Deus estabelece. Abel, Enoque e Noé nos ensinam isso por meio do exercício de sua fé.

Abel, o adorador por fé

Vamos a Gênesis 4:2-7 ( ...Abel tornou-se pastor de ovelhas, e Caim, agricultor. Passado algum tempo, Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez, trouxe as partes gordas das primeiras crias do seu rebanho. O Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta. Por isso Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou. O Senhor disse a Caim: Por que você está furioso? Por que se transtornou o seu rosto? Se você fizer o bem, não será aceito? Mas se não o fizer, saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquistá-lo, mas você deve dominá-lo). E em Abel encontramos dois movimentos da fé adoradora: compromisso e oferta. Percebe-se a diferença entre a aproximação cúltica de Abel e a de Caim. Os dois cultuaram. Deus Se agradou de Abel e de sua oferta. Desagradou-Se de Caim e usou a palavra pecado como indicador do problema, e assim identificou a forma de culto desse cultuador. Ela não consistiu numa aproximação, antes, mais no que parece um cumprimento de normas ou seu equivalente. Depois disso surgem no texto de Hebreus 11 as expressões: agradou a Deus e sem fé é impossível agradar a Deus.

A fé é nosso instrumento de aproximação. A adoração mecânica é pecado, religiosidade insípida, não fruto de fé. Ela não leva o adorador ao objeto de sua adoração. Ela nada oferece, porque só entende de troca, de receber. Pode até mesmo ser fruto de vaidade religiosa. O movimento de fé em Abel ficou em memória, à semelhança da mulher que ofereceu o ungüento do vaso de alabastro a Jesus. Foi por meio da fé que Abel se aproximou e cultuou o seu Deus.

Enoque, o adorador em espírito

Isto fala de intimismo e de identificação. Vamos a Gênesis 5:21-24 (Aos 65 anos, Enoque gerou Matusalém. Depois que gerou Matusalém, Enoque andou com Deus 300 anos e gerou outros filhos e filhas. Viveu ao todo 365 anos. Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o havia arrebatado).

Num certo momento Enoque deixou de ser Enoque, tanto identificou-se com Deus. A fé propicia identificação: ...e não foi mais...(ARA). Como se o texto pretendesse dizer: Quem era Enoque? Ou: Quem era Deus ou Enoque? A beleza desponta na expressão: andou com Deus. Quanto isso significa para nós? Andar é a expressão visível de movimentos internos como  pensar e querer. A Bíblia afirma que Noé andava com Deus, mas quanto a Enoque, contabiliza: 300 anos! Alguém fez esta conta.

É uma experiência de foro íntimo, no espírito, pelo lado de dentro, paixão. Não se diz que o testemunho de fé se deu por realizações, ganhos, conquistas. Não. Antes, diz que ele alcançou testemunho de que agradou a Deus. Isso é adorar em espírito. E houve trocas: Na carta de Judas somos informados de uma profecia para os tempos dos fins, atribuída a Enoque, e isso nos faz pensar no nível dessa intimidade alcançada, que leva Deus a confiar a um homem dos primórdios Seus segredos para o fim dos tempos (Jd. vv.14,15). Tem tudo a ver com a promessa do Salmo 25:14 – A intimidade do Senhor é para os que O temem, aos quais Ele dará a conhecer os Seus segredos (ARC).  Foi por meio de sua fé que Enoque andou com Deus.

Noé, o adorador em verdade

Noé creu e agiu. Isto fala de atitude, decisão, fatos. Vamos a gênesis 6:9 e 22 (...Noé era homem justo, íntegro entre o povo da sua época: ele andava com Deus... Noé fez tudo exatamente como Deus lhe tinha ordenado).

Somos levados a pensar em Noé à luz de Tiago 2: 14-18, difícil e desafiador texto aos nossos dogmas evangélicos!

A verdade consiste em fatos. Sua fé operava, tinha visibilidade, obra. Porque ele creu no que lhe foi dito, ele agiu, trabalhou, construiu, enquanto aguardava o que ouviu. Creu que haveria dilúvio; que viriam os animais; que ele e sua casa seriam preservados. E então agiu. A fé que opera em verdade mostra a cara do seu discurso ou confissão. Podemos emparelhar com Noé outros, como Zaqueu, que externou mudança e agiu nessa direção a partir de seu encontro com Cristo. Também a mulher samaritana, que deixou seu cântaro junto à fonte, evidenciando que creu na saciedade que o Senhor lhe prometera. E ainda Pedro, quando andou sobre as águas em direção a Jesus. Alinhamos também Daví, diante do gigante Golias, apressando-se em ir contra ele. Nosso texto afirma que Noé agiu por meio de sua fé.

Alcançaram bom testemunho, e testemunho de que agradaram a Deus. Este deve ser nosso compromisso de fé em meio a esta geração: que adora pela fé, e o faz em espírito e em verdade.

III-O Exercício da Fé Que Se Rende

Com Abraão, temos mais pegadas para a fé seguir em direção ao percurso de todo o trilho que nos faculta sermos mais que vencedores, na linguagem de Paulo, apóstolo, em Romanos 8: 37: Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.

Somos exortados a percorrer esse trilho olhando para Jesus, o autor da fé, que Se ofereceu. Então, nós nos oferecemos a Deus por meio dEle, em rendição pela fé. A relação é com base em entrega, desprendimento, renúncia, confiança. Daí despontar primeiramente Abraão, cujas pegadas de fé começam como:
   
Os passos do desamparo voluntário

Também podemos com isso significar passos da dependência incondicional e da esperança que não cessa, conforme se percebe a partir de Hebreus 11:8. Quando este texto usa as expressões obedecer e dirigir-se, alusivos aos movimentos da fé do patriarca refere-se ao texto clássico de Gênesis 12:1- 3. O que podemos ver aí? Um tremendo desafio: tudo começa com um autodesamparar-se. Em outras palavras, ouvir Deus ordenar a Abraão, sai da tua terra e da tua parentela, deve ter soado como ouvi-Lo dizer : a fé em Mim tem de levá-lo a desprender-se, soltar-se, abrir mão de suas próprias garantias. Significaria para Abraão abrir mão de sua segurança cultural, de seu clã onde ele tinha seu espaço, crédito, conforto, junto aos parentes que lhe davam nome. E para nós? Não pretenderia Deus rendição semelhante dos que se achegam a Ele por meio de Jesus? Para Abraão significava desprender-se de garantias e herança: o espaço sob seu controle. Seria como deixar o certo e visível pelo incerto, nebuloso, obscuro, porque representava investir num futuro não dimensionável. Representava trocar a trilha traçada pela proposta pessoal e viável pela trilha traçada na invisibilidade de Deus. Restaria uma só rota: confiar. E isso redunda num movimento conhecido como obedecer.

Os passos da obediência irrestrita

No que respeita a nós, isto deve compreender nossa disposição de deixar-nos dirigir por Ele para além de nossa própria previsibilidade. E então desponta a obediência como o passo seguinte, quase conseqüente, apontado em Hebreus 11:9 como peregrinar na terra prometida. Ele saiu com pouco ou nada e foi para onde seria estrangeiro. Deus continuamente nos leva a esses movimentos de dependência exclusiva pela fé. Vêm desafios: mudanças na casa, no emprego, desconfortos espirituais, uma miscelânea de ocorrências que o Senhor administra, como o espinho na carne que nos afasta de nossa segurança calcada no previsível, ou seja, em nós mesmos. A peregrinação de Abraão é bem conhecida de todos nós: com altos e baixos. Momentos de glória e outros de obscuridades, com enfrentamentos e atonicidade. Em alguns momentos surgiam as questões: onde está a promessa? Por quem se cumprirá? Contaram também as renúncias diante de Ló, que envolveram guerras, poços escavados, subterfúgios para proteger a família. Mas por fim, conquistou toda a jornada com altos ganhos. Mas sempre foi peregrinação, nunca raízes. Antes um montar e desmontar de tendas. E a bênção veio, afinal, plena e compensatória! Abraão em tudo isso aprendeu a esperar, conforme Hebreus 11:10 aponta. Porque a fé caminha no invisível, não no escuro, como informam os textos de II Coríntios 4:18  (Assim, fixamos os olhos não naquilo que se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno) e Romanos 8:25 (Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente).

Os passos da esperança perseverante

 A esperança aponta para a frente e para o alto. Em Abraão ela operou com movimentos muito significativos que podem ser conferidos no texto de Romanos 4:18-21 (Abraão, contra toda a esperança, em esperança creu, tornando-se assim Pai de muitas nações, como foi dito a seu respeito: “Assim será a sua descendência”. Sem se enfraquecer na fé, reconheceu que o seu corpo já estava sem vitalidade, pois já contava cerca de cem anos de idade, e que também o ventre de Sara já estava sem vigor. Mesmo assim não duvidou nem foi incrédulo em relação à promessa de Deus, mas foi fortalecido em sua fé e deu glória a Deus, estando plenamente convencido de que ele era poderoso para cumprir o que havia prometido).  Era mais que esperar na mão de poder, mas no coração que o move. Era enfrentar a realidade dos fatos mas manter-se firme ouvindo a Voz no íntimo. Sua esperança estava na fidelidade de Deus. Então ele podia ver, pela fé, a despeito da eloqüente e visível mensagem das circunstâncias, como nos ensina outra testemunha, Moisés, em outra pegada da fé.

A fé vê o invisível

Lendo Hebreus 11: 23-28, nossos referenciais são encontrados em Êxodo e despontam ante nós como os modelos da fé que vê o Invisível. A evidência maior dentre esses antigos é Moisés, o homem que via pela fé. Moisés tinha uma lente espiritual que se sobrepunha à visão dos sentidos físico-temporais. Esta questão de “ver pela fé” está regida por alguns princípios bíblicos apresentados por Jesus e por Paulo, como em João 11:40 (...Não lhe falei que, se você cresse, veria a glória de Deus?); João 20:29 (...Felizes os que não viram e creram) e II Coríntios 5:7 (Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos). Penso também em Provérbios 29:18 conforme a Versão Revista e Atualizada (Sem visão o povo fica sem freio...).

A história inteira da vida de fé, em Moisés, está marcada por sua visão de fé, ou que a fé propicia, já como herança de seus pais, conforme mostra o v.23.

O texto diz que Moisés viu o Invisível (v.27) e antes contemplava a recompensa (v.26). Mas sua história de vida, desde o começo está pontilhada desse movimento em decorrência de como via. Lembram? Em Êxodo 3 tudo começa com a visão da sarça ardente. Por ver, ele ouviu a Voz. Depois, sabemos que construiu todo o tabernáculo a partir de um modelo que lhe foi mostrado no Monte. Tudo começou com uma visão. E continua sendo assim.

A fé nos foi dada para vermos, porque antes de começarmos a vivê-la, a Palavra de Deus nos informa que éramos cegos em nossos entendimentos. A fé que vê, vem de Deus. Usar suas lentes, é nossa resposta.
            (a) Paulo viu em Damasco, e creu;
            (b) João viu em Patmos, e perseverou;
            ( c ) Estevão viu, durante seu martírio, e absorveu no rosto essa visão;
            (d) Tomé tentou ver com os olhos da carne e foi repreendido;
            (e) Isaías viu, e se viu e então se arrependeu;
(f) Pedro viu a glória no Monte, e esqueceu-se de si mesmo, e esta foi também a experiência de Moisés. Porque viu, ficou fascinado. A visão de fé, fascina.

Esqueceu Moisés de si mesmo. A Palavra vista aqui em Hebreus 11:13 cumpre-se nele mais que em qualquer outra testemunha de fé. Moisés começou sua carreira por uma visão e terminou também com uma visão. Contemplou a terra, na qual não pôde entrar.

Mas dissemos que de Deus vem a lente da fé, e nos cabe saber usá-la. É uma luta titânica contra dois níveis que se opõem: o temporal e o espiritual. E nessa luta estamos nós. Moisés a superou e venceu. Aprendamos com ele, através de seus movimentos:

Os verbos de seus movimentos são plenos de significado: recusou, preferiu, considerou, contemplou, saiu, não temeu e celebrou. Faltou o conquistou que fica subentendido no v.29. Quanta história de vida encerram! O eixo desses movimentos está no v.26, final: contemplou. Porque viu pela fé, então:

 A fé tomou posição

É onde lemos os verbos dos movimentos associados: recusou, preferiu e considerou. A proposta de vida de fé, por ser no invisível, sempre vai implicar numa desinstalação que aqui temos chamado de perda ou renúncia. Moisés não tinha pouco a perder. Nunca o evangelho entra em nossa história buscando uma acomodação de situações. Maioria das vezes ele força uma ruptura, ouvida nestes termos: Escolham hoje a quem servir ou: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino dos céus. E ainda: Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.

A realidade, nossos desejos e seu contexto parecem mais eloqüentes mas a vida com Deus sempre vai nos levar a esse desafio: Tire as sandálias de seus pés, entre descalço. Recusas, opções e avaliações são bem vindas. A contabilidade fica de fora: considerou (fez um balanço). Os verbos seguintes dão o novo movimento:

A fé moveu-se!

De novo o movimento da fé eficaz! Quem vê, avança!

Moisés saiu e não temeu, porque o mover em decorrência da renúncia, comprometia, criava enfrentamento de oposições, provocava desprazeres em outros que perderiam algo em Moisés.

Até mesmo em atos simples de fé isso continua acontecendo. A mulher que tomou a iniciativa de ungir Jesus, incomodou os demais.  No caso de Moisés, Faraó ficou irado.

Sair, para Moisés, significava enfrentar um deserto, um mar fechado e os desafios decorrentes. Significava fechar os ouvidos para contrapropostas de acomodação que agradassem a ambos os lados.  Mas assumir a ruptura também implicava em pisar no terreno da fé que vê acontecer, que vivencia o poder de Deus.

A vida trouxe opções confortáveis a alguns cristãos, que as renunciaram no auge de sua velhice, por conta da visão de sua fé.  Penso, entre tantos, em Cornélia Tem Boom, a holandesa dos anos 1940 que foi levada para um campo nazista, presa por ajudar os judeus, já aos sessenta anos de idade, de onde saiu cinco anos depois e começou um ministério internacional de pregação da Palavra de Deus, que durou toda a sua vida, até morrer com mais de oitenta de anos. Penso também em algumas testemunhas tão próximas a nós, em nossos dias, que embora não tendo ido a campos distantes, se desinstalaram para viver sua vida espiritual nos níveis da proposta divina, e sofreram e ainda sofrem perdas temporais porque experimentam a loucura do evangelho: mais bem-aventurada coisa é dar do que receber. E quanto conseguem ver! Sua motivação  é a dificuldade dos outros, crentes ou não-crentes, obreiros ou não. Fazem a contabilidade da fé. Já ouvi um desses dizer: Não faço poupança em bancos. Invisto no Reino de Deus. Nada me falta! Mas seria apenas uma questão de contemplar pela fé, ou Moisés nos mostra que o contemplar tem algo mais? Sim, então veremos o terceiro movimento: Perseverou e celebrou.

A Fé produz a paixão que fascina

Moisés perseverou até que pôde celebrar e isso dentro de uma história ainda em formação e sob enfrentamento. Mas o texto nos conta o segredo dessa visão de fé, no v.26: Por amor de Cristo. Sabemos que esta é uma linguagem densamente figurada quanto a Moisés. Mas não é diferente quanto a nós hoje, crentes de 20 séculos depois de Cristo. Aquele a Quem não vendo, amamos. Quem O contempla pela fé, O ama, e deve deixar-se apaixonar. Paulo usou muito dessa expressão: Por amor a Cristo estou em cadeias; o amor de Cristo nos constrange. Quê visão é essa, que apaixona? Seria a visão que O enxerga pelo lado de dentro:
                        - estou aceito;
                                   - perdoado;
                                               -cuidado;
                                                           - tolerado;
                                                                       - compreendido;
                                                                                  -protegido;
                                                                                               -em aliança ( acompanhado).
São expressões próprias da fé de homens que a viveram:
            Porque o Senhor está comigo; Perto está o que me justifica; Minha alma te segue de perto, meu corpo te almeja.

Quando os olhos incrédulos de Tomé deram lugar aos olhos da fé, ele gritou: Senhor meu e Deus meu!
            A quem tenho eu no céu além de Ti?, o salmista perguntou. E nossos hinos também falam dessa paixão. Ela é visão viva nas páginas da Revelação, mas se intensifica na proporção da busca intimista, do coração que se achega em oração, na solitude.

Por último, devemos atentar ao texto de Hebreus 11: 29- 39.  O trecho que compreende os vv. 29 a 34 é o discurso mais cobiçado no texto da fé perseverante de Hebreus 11.  E este trecho nos fala da

IV-Fé dos Empreendedores e Perseverantes

Muitos há que só lêem aqui, neste trecho alvissareiro e atraente. É aqui que se entende ou se pensa que se entende sobre heróis espirituais, heróis da fé.  Quero começar advertindo quanto a duas coisas interessantes:
1-      A sabedoria do Espírito Santo que só fez menção desses heróis após nos levar a uma longa caminhada através dos baluartes anteriores vistos até aqui. Logo, há risco de temeridade em ler este texto isoladamente.
2-      Depois: alguns desses heróis não foram tão heróis assim, nos termos de nossa piedade evangélica. Sansão ( e nos lembramos de sua fraqueza por mulheres pagãs); Davi }( e nos lembramos de suas freqüentes quedas) e Raabe (cujo ofício não era nada santo).
Mas a fé revelada por suas conquistas atendeu perfeitamente aos padrões aqui vistos anteriormente. Como eles são muitos, e ainda há os lembrados sem serem citados, que sobrecarregam a lista, apontaremos em destaque apenas alguns desses empreendedores que bastam ao nosso exame.

Dois eventos marcos no empreendimento da fé

Vejamos Hebreus 11: 29 e 30. O Mar Vermelho e a queda de Jericó. O primeiro me fala de dependência absoluta. Desafiador! Acredito que possa alinhar aqui o texto de I Pedro 1:13 apontando-o remotamente.  O segundo me fala de perseverança. A fé que vem de Jesus impõe estas ações, já temos visto. E Cristo e a Igreja sempre entenderam de perseverança. Lembremos Elias no Carmelo. Perseverar significa tirar o foco do desejo, de si, para a esperança em Deus e Seu poder.

Os fracos heróis

Aqui estão eles: Hebreus 11: 32 e 33.  Não eram superheróis que evidenciaram uma superfé. Nem mesmo Sansão. Eles tinham como característica comum suas fraquezas inerentes, que por si os incapacitavam, e ao mesmo tempo os recomendavam. Vou ilustrar com os próprios personagens citados:
Gideão. Que bom ser ele o primeiro! Idêntico a nós. Deus lhe disse: Vai nesta tua força! E a força de Gideão foi vista pelo discurso do pânico: Ai, Senhor meu!
Baraque, que ganhou nome por conta de Débora, mas era fraco.
Sansão, um portento físico, mas se o Espírito não agisse nele, ele morria, e era carnal. Gritou desesperado, quando se viu na iminência de morrer de sede após grande façanha.
Jefté, precipitado, temerário, mas dependente.
Davi.  Quanto a ele prefiro pensar que Deus diga de nós o que disse dele: Varão segundo o Meu coração.
Samuel, que às vezes via por seus próprios olhos, somente o que era aparente, e não teve visão do fracasso de seus próprios filhos.
E ainda podemos tornar a citar Moisés, pois creio que ninguém esquece quanto ele resistiu a Deus por ver sua própria insuficiência humana para o empreendimento ao qual era desafiado. Também os profetas: Amós e Jeremias se destacam e aqui incluo de novo Elias. Eram fracos heróis, e por isso neles o poder de Deus se aperfeiçoou. Eram testemunhas, e isso contou na fé que lhes foi dada.

Os heróis da fraqueza

E eles aparecem aqui, no mesmo corolário de testemunhas. A esses eu chamo de perseverantes. Devemos vê-los nos textos de Hebreus 11: 33 e 11:34. Podemos vê-los em situações humílimas, de onde foram exaltados porque pela fé praticaram a justiça.
Enumero: Daniel, na cova dos leões e seus três companheiros na fornalha incandescente. Pedro na cadeia, Paulo e Silas em Filipos, Baraque e Débora.

Por que os chamo de os heróis da fraqueza? Porque o texto informa isto: Da fraqueza tiraram força. Paulo nos ensinou isto em II Coríntios 12: 9 e 10. O texto que diz: Da fraqueza tiraram força, significa que eles tornaram-se poderosos a partir da fraqueza. Minimamente representa não que adquiriram músculos, inverteram o processo, mas antes, que se tornaram experientes, capacitados, treinados, habilitados.

A fé tem um compromisso com a vitória, mas sua marcha é moral, real, não fantasiosa. Ela não dá show. Passa pelo caminho exposto por Paulo em Romanos 8: 35 a 39. E quando encerra sua jornada, ilustra a memória do seu confessor conforme registra Hebreus 11: 38 e 16, respectivamente: O mundo não era digno deles; Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade.

Que esta fé, da qual Jesus é o Autor e Consumador, cresça na sua vida, até o fim de sua carreira. Amem.

                                   Com carinho,
                                                           Pr. Cleber Alho




segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O OBELISCO E A TORRE

Entre um obelisco e uma torre, basicamente a diferença é estabelecida pela aplicação. Dependendo do formato e altura, o obelisco pode lembrar uma torre e vice-versa. Às vezes dá para confundir. Porém, a diferença essencial é vista no aplicativo: o obelisco serve como marco histórico, símbolo de honra, memorial. A torre, e me refiro às históricas, sempre esteve ligada à idéia de defesa, mais comum no mundo antigo por ser o local mais elevado que servia como ponto de vigilância sobre muralhas para defesa das cidadelas. Hoje constroem-se arranha-céus com o título de torre porque serve de homenagem à empresa que os construiu.

Em Gênesis 11, encontramos o relato da pretensão humana de construir uma torre que lhes fosse por obelisco. A Torre de Babel, construída na planície de Sinear, tanto atendia ao propósito de ser um memorial de registro do poderio humano, como uma torre de vigia quanto aos atos de Deus. Seus construtores pensaram: "Ergamos uma torre tão alta que toque o céu". Deus destruiu a torre dos homens infundindo-lhes perturbações cognitivas. Sem se entenderem mutuamente, dispersaram-se por toda a terra, na direção inversa do seu propósito que era tornarem-se independentes de Deus, centralizados em torno de si mesmos, autossuficientes. E ao mesmo tempo, na dispersão, atenderam ao propósito divino estabelecido nos primórdios: Povoem a terra! Sempre o intento divino correu nessa direção: Todos! Não só vocês! Espalhem-se, distribuam-se! Doem-se!

O pensamento humano não mudou muito desde então. Há uma tendência inata ao homem, filho de Adão, quanto a precaver-se, garantir-se, reservar-se, sempre fazendo tudo em torno de si e dos seus. Os outros são excluídos.

Deus vira a página da história, literalmente a narrativa do capítulo 11 do Gênesis para o 12, com o chamado de Abraão, a quem desafia a independer de si e dos seus, contrariando a direção carnal da vontade humana em Gênesis 11, para depender dEle integralmente e assim, construir sua bênção na direção de "todas as famílias da terra". E nesse propósito Abraão estaria erguendo seu obelisco, o memorial de ser uma bênção, em lugar da torre do egoísmo, ganância e particularidade.

Penso que em todas as épocas e lugares os homens continuam a construir suas Torres a partir de promitentes obeliscos. Torres da vaidade, soberba, para fazer-lhes nome na terra. Mesmo na Igreja, na construção de alguns ministérios é notório o fato de que os homens começam com o obelisco, o memorial que aponta para Deus, e logo o transformam em torre que reduz a proposta na fama, no louvor do próprio nome. Em alguns segmentos da fé cristã isso é ainda mais visível, como na mídia evangélica com o apodo de "gospel". Vemos as torres da fama sendo descaradamente "santificadas" no intento de serem testemunho de vidas abençoadas, por conta de terem sido bem sucedidas (especialmente em papel-moeda).

Mas, no geral, o obelisco da busca da bênção começa sempre a ser forjado no investimento pessoal em orações, cultos, reuniões, participações e realizações cúlticas que parecem atestar uma espiritualidade em alta. Nem bem começam resultados pretendidos e o "adorador" transforma o obelisco da bênção (via de regra de escopo material, secular) em torre de apropriação de independência e garantia pessoal.

Penso também se não estaria ainda hoje Deus "desconstruindo" essas torres nas vidas dos que as levantam para si mesmos.

Examinando a História na antigüidade é fácil perceber que desde os eventos de Gênesis11 Ele continua "descendo e confundindo" os construtores de torres, as torres da soberba pessoal e coletiva. É fácil também dar-se conta de que cada torre erguida pela pretensão humana de independer-se de Deus será derrubada a seu tempo. É só uma questão de tempo. E dou-me conta de que o processo é sempre o mesmo: a confusão do cognitivo. E o homem se esvazia na fé.

O que você está erguendo a partir de sua vida? Obelisco ou torre? Em que direção e a favor de quem está levando sua vida? É como você obtém sua resposta.

Pr. Cleber Alho

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

CRESCER OU ANIQUILAR-SE



Muito antes da confissão evangélica ser invadida pelos pressupostos da teologia da prosperidade, uma tendência à distorção, na esteira da qual a heresia se imiscuiu, já se fazia perceber a partir do condicionamento imposto aos crentes por muitos púlpitos que insistiam em reduzir o senso de adoração e busca de Deus aos possíveis favores divinos. Descer da posição de adorador para negociador foi fácil.

Hoje, num cenário em que nossa confissão bastante desprovida de sua genuinidade permitiu-se receber as lentes que reduzem a adoração a atos petitórios e de barganhas com Deus, que O destronam para ficar atrás dos balcões dos desejos e exigência confessionais, é fácil perceber a distinção entre o religioso e o adorador. Como a profecia, por seu próprio caráter, se antecipa a todo cenário, é nela que podemos (re)-aprender o discernimento dessa distinção. Nela destacam-se dois perfis. Vamos avaliá-los e convido você a fazer as conclusões concernentes.

Refiro-me à história de duas mulheres importantes na economia divina quanto à gênese da encarnação do Messias: Noemi e Rute. Lendo o curto e objetivo livro histórico, vemos o desenrolar dos padrões característicos da confissão que estabelece nítida distinção entre as duas, ao mesmo tempo em que as assemelha aos descendentes espirituais dessa história.

Houve uma tragédia vitimando aquela família. Elimeleque, acompanhado de seus dois filhos viaja para a região gentílica, Moabe, com sua esposa Noemi, porque um flagelo havia vitimado sua terra e povo. Em busca da sobrevivência tornam-se os retirantes em terra alheia. Ele morreu ali, pouco tempo depois. Seus dois filhos se casaram com mulheres da terra: Órfa e Rute, mas também vieram a morrer dez anos depois que ali se instalaram e isso antes de darem netos a Noemi. Ao rever sua triste sina, Noemi conclui: ...a mão do Senhor voltou-se contra mim! E disse mais: Não me chamem Noemi (agradável), melhor que me chamem de Mara(amarga), pois o Todo-poderoso tornou minha vida muito amarga! De mãos cheias eu parti, mas de mãos vazias o Senhor me trouxe de volta. Por que me chamam Noemi? O Senhor colocou-se contra mim! O Todo-poderoso me trouxe desgraça!

E aí foi inaugurada, via a teologia desagradável de uma mulher amarga, a confissão que estabeleceu a premissa distorcida: Se Deus não é por mim, é contra mim. Não só. Aí também foi estabelecida a confissão que determinava: “Ele só é Deus quando me favorece”. Ou pior: “Só entendo dEle quanto a benesses e favores”.

Essa confissão é transmitida a duas discípulas em potencial: Órfa e Rute. O texto de Rute 1: 11-15 revela que Noemi sugeriu o deus da terra como opção viável para as duas discípulas. Ainda insistiu com Rute que atendesse à decisão da concunhada que optou por voltar para o seu deus. Estaria Noemi fazendo uma confissão velada dessa mesma troca? Seria seu plano B caso o retorno para Efrata não desse em coisa boa? Muitos séculos depois ouvimos do seu santo e divino descendente: A boca fala do que está cheio o coração.

Apesar desse testemunho equivocado a respeito de um Deus que parecia caprichoso, temperamental e pouco acessível, Rute desponta com uma confissão que não apenas contraria o conselho de sua discipuladora, mas o ultrapassa em grandeza. Ao dizer à sua sogra: O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus, Rute nos faz pensar: O que a teria levado a insistir, contrariando o conselho de sua sogra, em buscar um Deus apresentado sem nenhum atrativo, pelo contrário, perigoso e injustificadamente punitivo segundo aquela confissão? Ou seu marido a discipulou com um credo que contrariava a ótica confessional de sua própria mãe, e ela teria aprendido a conhecer esse Deus por intermédio dele, ou ela conseguiu vê-Lo acima e melhor que o retrato que dele o “púlpito” doméstico fez. A verdade é que Rute decide-se por buscar esse Deus de Israel apesar das prerrogativas negativas sobre Ele apresentadas. Algo do tipo: “Ruim com Ele, pior sem Ele”. Ou ainda: “Ele, e só Ele, quer faça ou deixe de fazer”. Nesse momento, a confissão de Rute, a gentia, nos aponta o embrião confessional de uma igreja seguidora, do padrão confessional de uma Marta, um Pedro e um Jó, que afirmaram sua confiança e o querer seu Deus num contexto de tragédia e frustrações pessoais de grande monta ( Cf. João 11; 6:68 e Jó 2:10). Mais para a frente, vemos num jogo de palavras entre Boaz e Rute a reafirmação de que ela optou decididamente por viver dentro das fronteiras do Deus do povo de seu falecido marido ( Cf. 2: 11 e 12).

Mas, o que devemos aprender em tudo isso? Eis a oportunidade que continuamente se repete na história dos crentes em Jesus, para assumirem a posição de adoradores! Todo aquele que não ultrapassa o limiar de uma visão que, em meio às fatalidades da vida, faculta-lhe a opção de adorar seu Deus, se aniquila numa confissão reduzida que despreza a soberania divina a favor de favoritismo temporal. Reduz-se a um confessor que se entende com “direitos” justificados sobre Deus e os atos de Sua vontade.

Ou cresce, ultrapassa o limiar para, em meio às vicissitudes assumir: “Eu O quero; Eu O adoro”. Porque assume que o compromisso do Deus revelado em Jesus não O reduz a facilitador existencial por vias temporais ou interrupções de crises existenciais que transitam as vias da provação.

Podem crer que o Senhor está comigo e por isso é Deus num mundo em que terei aflições. Ficar aquém da oportunidade de confessá-Lo como Deus a despeito das dores e mágoas é comprometer-se a sucumbir ao desamparo e desespero dos que, longe de crescer na graça por aprender que enquanto sou fraco é que sou forte, exigem a retirada do espinho, e se Deus insiste em permitir o espinho, O amaldiçoam com sentimentos, palavras e atitudes.

O crente Noemi sempre verá em Deus uma dicotomia, uma cisão entre o bom e o mau. Psicotiza.

O crente Rute cresce quando em meio a dor, em lugar de se aniquilar e se ver perseguido, desamparado e maltratado, vai querê-Lo e confessá-Lo como o fez Jó: Sem dúvida, ó Deus, Tu me esgotaste as forças; deste fim a toda a minha família. Tu me deixaste deprimido... Eu estava tranqüilo, mas Ele me arrebentou; agarrou-me pelo pescoço e esmagou-me. Fez de mim o Seu alvo... Apesar disso, concluiu e confessou: Saibam que agora mesmo a minha testemunha está nos céus; nas alturas está o meu advogado. O meu intercessor é meu amigo, quando diante de Deus correm lágrimas dos meus olhos; ele defende a causa do homem perante Deus, como quem defende a causa de um amigo – Jó 16: 7-9; 19-21. Assombra que, em meio a tudo isso, esse servo de Deus teria declarado:  Embora Ele me mate, ainda assim esperarei nEle- Jó 13:15.

                                   No temor dEle,
                                                           Pr. Cleber Alho   

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

QUEM FAZ A SUA CABEÇA?



Nosso texto, para buscarmos o sentido de advertência dessa pergunta, se encontra em Juízes 16 que narra a história do herói Sansão, tão conhecido nosso até mesmo pelos apelativos cinematográficos que oscilaram em torno de sua epopéia.
Mas o que nos cabe nesta história é o tanto de comum que há entre nós, crentes em Cristo, e o herói, quase antiherói bíblico.

À parte o fato de ser ele o homem de Deus mais carnal de já se ouviu falar, dominado por suas paixões e temperamento explosivo,  alguns pontos que o distinguiam nos pertencem também: ele era impelido pelo Espírito de Deus, como revelam Juízes 13:25 e 14:6. Nós não o podemos ser menos, conforme disse Jesus em João 3:8 acerca de todo aquele que é nascido do Espírito. Outro tanto Paulo afirma em Romanos 8:9 que nós não estamos sob o domínio da carne, mas do Espírito... Também porque havia uma aliança entre Sansão e Deus. Mas a semelhança deve acabar aqui, porque o que passa disso não pode nem deve ser achado em nós. E refiro-me à triste lição que a história desse antiherói nos passa e que serve como advertência para todos nós. Alguém fez a cabeça de Sansão, com seu consentimento. Ou seja, Sansão colocou sua cabeça em lugar indevido: no colo do inimigo. Isto foi um movimento gradativo, como mostram Juízes 16:13 e 16. Assim, chegou o momento em que entre Sansão e Deus houve uma Dalila. Isto é sério.

A Bíblia nos diz o que deve ocupar nossa mente, ou, fazer nossa cabeça: Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.- Filipenses 4: 6-8. Por que? Porque o que ocupa nossa mente, estabelece nosso vigor, visão e comportamento (resposta). O motivo, o desejo, cria nossa visão. Basta pensarmos no desejo como nossa força, motivação, poder.
A visão determina nossa liberdade.
Foi tudo quanto Sansão perdeu.
Começou por perder o poder, conforme Juízes 16:19 expõe: Fazendo-o dormir no seu colo, ela chamou um homem para cortar as sete tranças do cabelo dele, e assim começou a subjugá-lo. E a sua força o deixou. E nem se deu conta. Isto também pode ocorrer ao crente, dependendo do que permitimos que ocupe o nosso pensamento.  Daí a advertência de Paulo: As más companhias pervertem o bom comportamento. E o resultado sai conforme adverte Efésios 4:30 : Não entristeçam o Espírito Santo de Deus... ou, conforme I Tessalonicenses 5:19: Não apaguem o Espírito... O que entrar, sairá apresentando seus resultados. Jesus disse que a boca fala do que está cheio o coração, e então cumpre-se outra máxima Sua em que Ele diz que o que contamina o homem é o que sai por sua boca.

Depois de perder a força, Sansão perdeu a visão. Lembram? Juízes 16:21-  Os filisteus... furaram os seus olhos... Triste! Mas significativo. O inimigo o cegou. A mente ocupada ou contaminada já é um indício de cegueira.
Satanás usa o mundo e seus conceitos para cegar. Está escrito: O deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos para que não vejam a luz do Evangelho – II Coríntios 4:4.
A primeira coisa que esta cegueira faz é perda de percepção do Evangelho. A cegueira espiritual tira a capacidade de ver o poder, a autoridade e a santidade da Palavra de Deus. E, como disse Salomão: Sem visão o povo fica sem freio. Quem não pode ver, não sabe para onde está indo.
A conseqüência imediata da perda da visão é a perda da liberdade, como, na seqüência, mostra o v.21: Prenderam-no com algemas de bronze, e o puseram a girar um moinho na prisão.
Foi reduzido a um animal de carga e sob sofrimento. Jesus deixou claro: Vocês conhecerão a verdade e a verdade os libertará. Paulo afirmou: Vocês foram chamados à liberdade.
Alguém cuja cabeça deitou-se no colo do inimigo perde, por fim, a liberdade da vida espiritual em Cristo. E pode existir um crente desprovido da liberdade para a qual foi chamado?  Bem, não consigo ver vida de liberdade no cristão que continuamente se manifesta:
                                               sob cadeias de culpas;
                                               cadeias de superstição espiritual;
                                               fobias do mundo espiritual;
                                               cheio de enigmas;
                                               escravo de medo dos demônios e poderes das trevas.

A liberdade de filhos nos faz leves, soltos, com autoridade, plenos de alegria.

Tudo começa com o lugar onde reclinamos nossa cabeça. Ou agimos como Sansão, ou como João, que reclinou a cabeça sobre o peito do Mestre.

Onde você busca descanso, conforto, prazer? Quais são as preferências de sua comunhão, suas amizades? Quem está fazendo sua cabeça?

                                   Com um abraço,
                                                                       Pr. Cleber Alho